Luz, cor e inclusão |
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Azevedo, Faur, Barbosa Lima |
Luz, cor e inclusão: uma nova leitura de FLICTS |
Light, color and inclusion: a new reading of FLICTS |
Luz, color e inclusión: una nueva lectura de FLICTS
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Ana Beatriz Vaz de Azevedo |
Instituto Oswaldo Cruz (IOC/FIOCRUZ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil |
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Giselle Faur |
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil |
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Maria da Conceição de Almeida Barbosa Lima |
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil |
E-mail de correspondência: ana.beatriz.v@hotmail.com
Recebido em: 01 set 2026 • Aceito em: 21 set 2026 • Publicado em: 30 set 2026
DOI: 10.12957/impacto.2026.101900
Resumo |
Este escrito especial tem por objetivo apresentar possibilidades de relacionar conceitos físicos, literatura e inclusão em uma proposta didática que une a leitura do livro Flicts de Ziraldo, a montagem de um aparato experimental e a discussão sobre a inclusão, especialmente de estudantes com deficiências visuais. Para isso, iniciamos com a apresentação da história de Flicts e dos conceitos básicos sobre luz visível, entendendo que a proposta aqui sugerida pode ser trabalhada em nível fundamental e médio da Educação Básica. Para a proposta prática, baseamo-nos no referencial teórico de Ensino por Investigação e na importância da argumentação em sala de aula para promoção de atividades que envolvam o protagonismo estudantil a partir da problematização: Como se forma o Arco-Íris? Esse problema não é novo e nem ausente em pesquisas realizadas em sala de aula, mas nossa proposta busca unir a problematização à literatura de Flicts com foco para discussão da inclusão escolar de alunos com deficiência visual. A partir da problematização, é sugerida a montagem do aparato como uma das possibilidades para o desenvolvimento de atividades práticas no ensino de Física. A proposta envolve ainda o fechamento das atividades com objetivo de introduzir uma visão crítica sobre a Ciência enquanto uma construção sócio-histórica cultural. Nesse sentido, retoma-se a leitura de Flicts a partir de uma nova visão de mundo que contemple a construção do conhecimento científico como parte da cultura e como caminho possível para a inclusão e para a luta contra as injustiças sociais. |
Palavras-chave: Conceitos Físicos, Literatura, inclusão. |
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Abstract |
This article aims to present possibilities of relating physical concepts, literature and inclusion in a didactic proposal that combines the reading of the book Flicts by Ziraldo, the assembly of an experimental apparatus and the discussion about inclusion, especially of visually impaired people, in the classroom. To do this, we begin with the presentation of the story of Flicts and the basic concepts about visible light, understanding that the proposal suggested here can be worked on at the elementary and high school level of Basic Education. For the practical proposal, we based ourselves on the theoretical framework of Teaching by Research and the importance of argumentation in the classroom to promote activities that involve student protagonism based on the following problematization: How is the Rainbow formed? This problem is neither new nor absent in research carried out in the classroom, but our proposal seeks to combine the problematization with the Flicts literature with a focus on discussing the school inclusion of students with visual impairments. Based on the problematization, the assembly of the apparatus is suggested as one of the possibilities for the development of practical activities in Physics teaching. The proposal also involves the closure of activities with the aim of introducing a critical view of Science as a socio-historical and cultural construction. In this sense, Flicts' reading is resumed from a new worldview that contemplates the construction of scientific knowledge as part of culture and as a possible path to inclusion and the fight against social injustices. |
Keywords: Physical Concepts, Literature, Inclusion. |
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Resumen |
Este artículo tiene como objetivo presentar posibilidades de relacionar conceptos físicos, literatura e inclusión en una propuesta didáctica que articula la lectura del libro Flicts, de Ziraldo, el montaje de un dispositivo experimental y la discusión sobre la inclusión, especialmente de estudiantes con discapacidad visual. Para ello, comenzamos con la presentación de la historia de Flicts y de los conceptos básicos sobre la luz visible, considerando que la propuesta aquí sugerida puede desarrollarse tanto en el nivel primario como en el secundario de la Educación Básica. Para la propuesta práctica, nos basamos en el marco teórico de la Enseñanza por Investigación y en la importancia de la argumentación en el aula para promover actividades que involucren el protagonismo estudiantil a partir de la problematización: ¿Cómo se forma el arcoíris? Este problema no es nuevo ni está ausente en investigaciones realizadas en el aula, pero nuestra propuesta busca articular la problematización con la literatura de Flicts, con especial atención a la discusión sobre la inclusión escolar de estudiantes con discapacidad visual. A partir de la problematización, se propone el montaje del dispositivo como una de las posibilidades para el desarrollo de actividades prácticas en la enseñanza de la Física. La propuesta también contempla el cierre de las actividades con el objetivo de introducir una visión crítica de la Ciencia como una construcción sociohistórico-cultural. En este sentido, se retoma la lectura de Flicts desde una nueva visión del mundo que contemple la construcción del conocimiento científico como parte de la cultura y como un camino posible hacia la inclusión y la lucha contra las injusticias sociales. |
Palabras-clave: Conceptos físicos, Literatura, inclusión.
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“The moon is Flicts”
Neil Armstrong
INTRODUÇÃO
O que nos motivou a escrever este trabalho foi apresentar através da arte literária de Ziraldo Alves Pinto e de conteúdos de Física o problema da inclusão social.
Ziraldo Alves Pinto, foi jornalista, chargista, desenhista, mas sobretudo um cidadão de sua época. Lutou com as armas do jornalismo contra a opressão do regime militar que aconteceu no país durante 21 anos, a partir de 1964, mas, sobretudo sabia falar às crianças de modo único.
Como jornalista foi um dos fundadores do O Pasquim, um jornal que agregava várias pessoas em suas páginas, com entrevistas diferenciadas de outros meios de comunicação e, como era de se esperar, foi muitas vezes censurado e seus editores presos: inclusive Ziraldo.
Seu meio de conversar com as crianças surgiu em livros em quadrinhos: a Turma do Pererê e o Menino Maluquinho. A Turma do Pererê foi uma série de histórias em quadrinhos publicadas primeiramente em cartuns, em 1959, nas páginas da revista O Cruzeiro. Seus personagens foram criados pelo autor e cartunista Ziraldo em 1958. Até que, em 1980, Ziraldo dedicou-se às histórias do Menino Maluquinho.
A história do Menino Maluquinho foi publicada justamente no dia do 48° aniversário de Ziraldo: 24 de outubro de 1980. Uma justa homenagem ao autor que buscou em suas próprias vivências de criança uma forma de mostrar as várias facetas de um menino "que sabia de tudo, só não sabia ficar quieto". Sem dúvida esta história foi a mais marcante na carreira de Ziraldo e transformou-se em um fenômeno editorial.
Entre a Turma do Pererê e o Menino Maluquinho, existe o primeiro livro infantil escrito por Ziraldo: Flicts, lançado em 1969, que lhe rendeu o Prêmio Hans Christian Andersen em 2004, considerado o Nobel da Literatura infantil.
A proposta deste nosso trabalho de forma alguma é realizar uma biografia de Ziraldo, nosso interesse recai sobre a inclusão social de pessoas com deficiência visual, sejam elas cegas ou com baixa visão utilizando a história de Flicts. E sendo a escola um componente da sociedade onde vivemos, refletindo nossos hábitos e costumes, o que aqui falaremos, guardando as devidas adaptações esperamos que também sejam úteis para o trato de pessoas com deficiência em diversos níveis de escolaridade, notadamente o ensino fundamental e médio.
Estas pessoas muitas vezes sofrem preconceitos, sociais e intelectuais; algumas, se crianças, são alijadas do convívio das brincadeiras tanto dos grupos sociais dos locais de moradia quanto de grupos escolares. Há o que chamamos barreiras e estas são muitas: arquitetônicas, quando o acesso de uma pessoa com deficiência é dificultado, por exemplo a inexistência de rampas de acesso, a falta de sinalização nos sinais de trânsito, a comunicação exclusiva para pessoas que leem a tinta, ou seja, a carência de avisos em Braille ou sonoros, para as pessoas com deficiência visual, situações em que a carência de recursos de tecnologia assistiva se fazem notar, a barreira atitudinal; que se reflete diretamente na maneira em que essas pessoas são tratadas, como, por exemplo, se não fossem capazes de fornecer uma informação, às vezes sobre seu próprio desejo. Tudo isso é reflexo do capacitismo, que é a maneira preconceituosa como uma pessoa com deficiência é tratada.
A inclusão escolar não se aplica apenas às pessoas com deficiência, mas é um direito de todos os estudantes. Ao segregar os estudantes com deficiência compactua-se para que os estudantes sem deficiências acreditem que a sociedade não possui um lugar intelectual e académico para as pessoas que lhes são diferentes.
Neste sentido, promover a inclusão nas salas de aula regulares fomenta a criação de uma sociedade cada vez mais empática para com as diversas formas de se estar e existir no mundo. Esse ambiente diverso e inclusivo proporcionado pela escola pode ser a única oportunidade para gerar a empatia necessária para uma convivência harmoniosa enquanto a criticidade, o caráter e autonomia dos estudantes vem sendo formada com o auxílio da escola nesta etapa da vida dos jovens.
A Educação Especial Inclusiva busca garantir o acesso, a participação e a aprendizagem de todos os estudantes, independentemente de suas diferenças, necessidades, habilidades ou características. Esse conceito deve ir além de uma simples aceitação de matrícula na escola regular; também não pode ser caracterizado apenas pela integração e socialização de alunos com deficiência, transtornos ou superdotação com os demais alunos. É preciso propiciar um ambiente onde a diversidade e a diferença sejam reconhecidas, valorizadas e respeitadas por todos. Deve ser utilizada como uma oportunidade para enriquecer o ambiente educacional, de modo que esse ambiente se torne acolhedor e capaz de promover a aprendizagem de todos, indistintamente, preparando-os para conviver autonomamente em uma sociedade inclusiva e plural. (Riboli e Pertuzzatti, 2025, p. 2)
Nossa escolha recaiu sobre a história de Flicts, como objeto de trabalho, por ser a história de uma cor também alijada do convívio das demais, principalmente as que estão no arco-íris. Consideramos que apresentar o tema da inclusão através da Física, de forma tradicional, é pouco atraente e mesmo pouco eficaz se nosso desejo é o de atingir também os professores que poderão, em reuniões de pais e mestres ou mesmo em conversa com o responsável por um estudante com deficiência, apresentar este texto, ou baseados nele criarem dinâmicas que toquem no assunto, além, naturalmente atingir alunos dos níveis fundamental e médio de ensino, também por intermédio da ação de seus professores em aula.
A HISTÓRIA DE FLICTS
Flicts traz o dilema de uma cor sem vida, deslocada e que ninguém quer usar. “Nada no mundo é Flicts ou pelo menos quer ser” como é afirmado no texto da história. É uma cor representada no livro como algo semelhante a bege ou nude, que tenta de todas as maneiras encaixar-se entre as demais cores, se misturar, mas sempre é rechaçada por elas. O livro mostra que tentar se encaixar, muitas vezes, exige um esforço desmedido, permitindo apenas uma integração, ou seja, você tem o direito de estar ali, mas não de participar ativamente das atividades e brincadeiras do grupo. O negócio é sermos nós mesmos e vivermos nossas vidas da melhor maneira possível.
Com frases como: “Por favor não vá querer quebrar a ordem natural das coisas”, disse o violento Violeta; “Não tem lugar pra você”, disse o Laranja; “Não quebre uma tradição”, disse o Azul Anil; Flicts dá preciosas lições sobre bullying, aceitação, combate ao preconceito e transformação social. No livro, que foi publicado pela primeira vez no ano em que o homem pisou na lua há a afirmação de Neil Armstrong: “a lua é Flicts”; epígrafe deste trabalho e do texto original. Em uma nova edição, portuguesa da Editora Tinta da China, de 2023, encontramos o comentário de Armstrong de próprio punho como mostrado na figura 1.
FIGURA 1
Comentário e assinatura de Neil Armstrong no livro Flicts publicado pela Tinta-da-China
F
onte:
livro Flicts publicado pela Tinta-da-China
Além desta colaboração encontramos na contracapa da edição 38, a que usamos para esta escrita, palavras de Carlos Drummond de Andrade tecendo comentários a respeito não da cor FLICTS, mas da criação de Ziraldo. Na edição portuguesa encontramos a íntegra do texto de Drummond:
O mundo não é uma coleção de objetos naturais, com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência; o mundo são cores. A vida não é uma série de funções da substância organizada, desde a mais humilde até à de maior requinte; a vida são cores. Tudo é cor. O que existe, existe na cor e pela cor. A cor ama, brinca, exalta, repele, dá sentido e expressão ao sítio ou à aparência onde ela pousa. Cores são seres individualizados e superpoderosos, que se servem de nosso veículo ótico para proclamar sua verdade. Nossas verdadinhas concretas empalidecem ao sol múltiplo que elas concentram. Aprendo isso, tão tarde! com Ziraldo. Ou mais propriamente com Flicts, criação de Ziraldo, que independente do criador torna, e vive e vibra por si. Que é Flicts? Não digo, não quero dizer. Cada um que trave contato pessoal com Flicts, e sinta o que eu sinto ao conhecê-la: um deslumbramento, um pasmo radiante, a felicidade de renascer diante do espetáculo das coisas em estado puro.
Flicts faz a gente voltar ponto de partida, que, paradoxalmente, é ponto de chegada. No princípio era a cor; e no fim será a cor, alegria da percepção. Ou nem haverá fim, se concebermos a cor em si, flutuando no possível, desinteressada de pouso e de tempo. Flicts já flutua no bojo desta ideia. Mais um passo, e não precisará do ponto de referência, ela que rolou por toda parte para afirmar-se, acabou se encontrando... onde, não digo, não quero dizer. Você é que tem de chegar lá para vê-la. O conto contado por Ziraldo só merece um adjetivo, infelizmente desmoralizado: maravilhoso. Não há outro, e sinto a pobreza do meu cartuchame verbal para definir Flicts.
Mas exatamente nisso está uma das maravilhas de Flicts: não carece de definição. É. Mestre do traço desmistificador ou generoso (Supermãe, Jeremias), Flic Ziraldo abriu mão de suas artimanhas todas para revelar Flicts com absoluta economia de meios, ou, antes, sem meio algum. E dá-nos a festa da cor como realidade profunda, e não mera impressão da luz no olho. Sua revelação é fulgurante. Faz explodir a carga emocional e mental que as cores trazem consigo.
Disse que me faltavam palavras: entretanto, o próprio Ziraldo, monstro-inventor de Caratinga, soube encontra-las, compondo com elas não uma explicação de Flicts, mas um guia lacônico de viagem, para acompanharmos o giro ansioso de Flicts pelo Universo. Este guia saiu um poema exato.
De resto, que é Flicts senão poesia formulada de outra maneira por Ziraldo? E o consórcio das duas poesias forma uma terceira, dom maior deste livro.
Flicts é a iluminação- afinal, brotou a palavra- mais fascinante de um achado: a cor, muito além do fenômeno visual, é estado de ser, e é a própria imagem. Desprende-se da faculdade de simbolizar, e revela-se aquilo em torno do qual os símbolos circulam, voejam, volitam, esvoaçam -fly, flit, fling- no desejo de encarnar-se.
Mas para que os símbolos, se captamos o coração da cor? Ziraldo realizou a façanha, em seu livro. (Carlos Drummond de Andrade, 1969).
Como afirmou Drummond, tudo tem uma cor, as roupas, os brinquedos, os animais, enfim tudo. Existem vermelhos, azuis, amarelos, verdes, roxos, uma gama imensa de cores que nossos olhos podem ver e distinguir. Mas havia uma cor chamada Flicts que era hostilizada pelas demais, não era vibrante como o vermelho, não transmitia calma como o azul, não representava as florestas como o verde e por isso era excluída de brincadeiras com as outras cores, ninguém queria saber dela: ela era excluída, não havia para ela lugar nem no arco-íris.
Mas antes de continuarmos a falar de Flicts vamos entender o que é a luz visível, como vemos as cores e como se forma o arco-íris.
A LUZ VISÍVEL OU A LUZ QUE NÓS VEMOS
A luz visível recai em um pequeno pedaço do que chamamos espectro eletromagnético. Esta pequena parte que fica entre o ultravioleta e o infravermelho, no espectro eletromagnético inteiro, tem uma faixa de frequência que varia de 4,3.1014 Hz até 7,5.1014 Hz, como podemos ver na figura 2, e é o que nossos olhos conseguem ver, perceber formas e cores, desde que não tenhamos nenhuma deficiência visual nem mesmo o daltonismo, que se caracteriza por uma dificuldade, em geral, de distinguir entre tons de vermelho e de verde.
Figura 2
O
espectro da luz visível
Fonte: https://www.infoescola.com/fisica/espectro-eletromagnetico/
Pessoas com deficiência visual, a menos de alguns que têm baixa visão, não enxergam cores. Será que as conhecer é importante? Bianchi et al. (2016) concluem que os conceitos relativos às cores não dependem somente da informação visual, mas que outras associações estão envolvidas na sua construção, embora reconheçam que nenhum outro sentido fará com que um cego possa perceber as cores de maneira visual. Desta forma, acreditam ser possível ensinar cores a cegos, desde que estas sejam consideradas uma construção socio linguista.
Para pessoas que enxergam, sem qualquer deficiência visual, existem, em funcionamento pleno na retina, dois tipos de células fotorreceptoras denominadas: cones e bastonetes. Os cones são os responsáveis pela visão das cores e existem três tipos deles, cada um é especializado em uma das cores: vermelho, verde e azul as cores primárias da Física. De acordo com Pedrosa (2003), foi Leon Battista Alberti (1404-1472) quem definiu as cores vermelho, verde e azul como fundamentais e que dão origem às demais cores, para séculos depois a Física moderna ratificar sua afirmativa e estas são também as da televisão em cores. As demais cores são vistas pela associação dos registros feitos por estas células, enquanto os bastonetes são os responsáveis pela visão em preto e branco.
Talvez por isso Flicts fosse tão estranho, nenhuma combinação realizada pelos cones, encontravam na natureza, algum objeto ou ser vivente naquela cor. Daí então, ele ficar alijado das brincadeiras e não ser eleito para servir de coloração para qualquer coisa.
Da mesma forma que as cores brilhantes e bonitas faziam com Flicts e muitos fazem com as pessoas com deficiência visual. As deixam de fora das brincadeiras, acreditam que não conseguem aprender, não conseguem ter vontades e desejos, o que é um tremendo engano, como veremos no desenrolar da história de Flicts está no mundo de uma maneira diferente como vamos mostrar.
ARCO-ÍRIS E UMA PROPOSTA PARA SALA DE AULA
FIGURA 3
U
m
arco-íris
Fonte: https://escolaeducacao.com.br/cores-do-arco-iris/
Lindo, não?! Quem não fica feliz quando descobre no céu, depois de uma boa chuva, um belo arco-íris como o mostrado na figura 3, acima? Mas como são formados?
A definição de arco-íris mais sucinta e clara que encontramos é a de Andrade-Neto (2015) que afirma: O arco-íris é um fenômeno ótico no qual a luz branca, proveniente do sol, é dispersa em suas cores características por gotículas de água presentes na atmosfera e, em seguida, é desviada para o olho de um observador. É um arco multicolorido cujo espectro varia suavemente do vermelho, na parte superior do arco, para o violeta na parte inferior, com as outras cores na região intermediária.
Ainda de acordo com Andrade-Neto, o trabalho mais antigo que temos notícia que teve como objetivo estudar o arco-íris foi o do monge alemão Teodorico de Freiberg em 1304. Trezentos anos depois, em 1637, René Descartes publicou seus estudos sobre o assunto. Tanto Freiberg quanto Descartes utilizaram a geometria para explicar a formação desse fenômeno ótico tão bonito. Depois deles vieram Young e Newton, este último talvez seja o mais conhecido pelo seu disco, o Disco de Newton. Mais recentemente, no final do século XX, Moisés Nussenzveig tratou o assunto com uma abordagem ondulatória da luz, enquanto as anteriores trabalhavam com o conceito de raios luminosos.
Você já sabe que a luz tanto se comporta como partícula quanto como uma onda eletromagnética, certo? Mas aqui ela será tratada sempre como uma partícula.
A proposta para sala de aula, em nível fundamental ou médio, aqui apresentada, não pretende ser um roteiro rígido cujas atividades sejam seguidas sem flexibilidade e contextualização para as diversas situações educacionais de nossa realidade. Ao contrário, a possibilidade de unir literatura às aulas de Física, já tão presentes na pesquisa em Ensino de Física desde a tese de doutorado de João Zanetic (1989), e sugere muitas possibilidades.
Nossa proposta parte da leitura do livro Flicts, e da discussão de ideias, via roda de conversa e potencialização da argumentação em sala de aula (Sasseron, 2015). As ideias tanto sobre inclusão quanto sobre a física do arco-íris são fundamentais para a formação dos sujeitos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.
Após a roda de conversa, sugerimos fazer uma experiência de dispersão da luz branca (luz solar) como forma de introduzir o ensino por investigação (Sasseron, 2015), ou seja, colocar um problema para os alunos resolverem: Como se forma o Arco-Íris? Esse problema não é novo e nem ausente em pesquisas realizadas em sala de aula, mas nossa proposta busca unir a problematização à literatura de Flicts.
Com alguma facilidade e engenhosidade, o experimento é viável em sala de aula, como mostrado na figura 4. A luz solar incide em um aquário triangular isósceles cheio de água. Veremos sair do outro lado do aquário, que de agora em diante chamaremos prisma, raios de luzes coloridos de acordo com o espectro visto no arco-íris, com a diferença que não apresentarão a curvatura, serão raios retos, mas darão uma boa ideia da formação do arco-íris na natureza.
F
IGURA
4
Aparato Experimental
Fonte: Acervo da Universidade
Em verdade, este experimento só é visível para aqueles que enxergam, para uma sala inclusiva, onde estão ali incluídos estudantes cegos e com baixa visão, algumas adaptações são necessárias. Uma delas é a confecção de maquetes táteis, como a apresentada na figura 5, o que facilita que os alunos com deficiência visual acompanhem a aula. Outra possibilidade interessante seriam os estudantes sem deficiência visual descreverem o que veem aos estudantes com deficiência visual, proporcionando uma maior interação entre os estudantes e incentivando o trabalho colaborativo.
FIGURA 5
M
aquete
tátil
Fonte: Ramos (2019) Reconstruída em 2024
Esta maquete pode ser construída pelo professor ou pelos alunos, como tarefa colaborativa. O material utilizado, neste caso, foi uma tela para fazer quadros pintada de preto, um prisma, construído pelo autor com lâminas de exames laboratoriais colados em suas arestas menores, tintas nas cores do arco-íris e materiais de diferentes texturas formando as diferentes ondas de frequência referentes a cada uma das cores.
Sobre a dispersão da luz, a descrição dos acontecimentos deve ser realizada com detalhes uma vez que a linguagem é essencial para a compreensão e a construção da aprendizagem dos alunos com deficiências visuais. Uma questão interessante que deve ser ressaltada é que o arco-íris sempre se forma do lado do Sol.
Conforme ressaltado anteriormente, tal construção não é nova, caracterizando-se ainda como um Experimento Histórico, cujo papel vem sendo considerado importante para o ensino das ciências. Segundo Silva e Martins (1996; 2015), o fenômeno de formação das cores foi esclarecido por Isaac Newton no século XVII de acordo com a figura 5. Entretanto, os autores revelam ainda que, segundo o próprio Newton, ele não foi o primeiro a observar as cores produzidas por um prisma, tendo esse assunto já sido discutido por Rene Descartes, Robert Boyle, Francesco Maria Grimaldi e Robert Hooke. O objetivo do artigo foi mostrar que “a hipótese da composição da luz branca aceita por todos não é tão simples como os livros apresentam” (Newton, 1996, p. 314). Não é nosso objetivo aprofundar tal questão nesse trabalho, mas consideramos interessante apresentar que a montagem tem relação com a História da Ciência:
FIGURA 6
E
squemas
Experimentais descritos por Newton
Fonte: Martins e Silva (2015)
No sentido de explorar diversas possibilidades para uma turma inclusiva, ou seja, uma turma em que existam alunos sem e com deficiência, outras construções são apresentadas na literatura, como a Fábrica de Arco-íris cujo objetivo é decompor a luz e sua formação em componentes coloridas (G.E.F. Projeto Experimentos de Física com Materiais do Dia-a-Dia - UNESP/Bauru) talvez necessitando, em algumas ocasiões, adaptações para tornar essas experiências mais acessíveis a pessoas com deficiência.
Voltando à nossa proposta, podemos ainda sugerir a relação com a música uma vez que a banda de rock Pink Floyd tornou a imagem deste experimento bastante popular quando a estampou na capa de um de seus discos, The Dark Side of the Moon, (figura 7).
FIGURA 7
C
apa
do álbum The Dark Side of the Moon, do grupo inglês Pink Floyd,
lançado em 1973
Fonte: https://brainly.com.br/tarefa/29898633
Mas perceba! As sete cores aparecem neste espectro, mas você não encontrará Flicts na natureza, não há lugar para ela.
Após a realização da atividade prática, sugere-se um novo debate para introduzir a ideia de que os conceitos físicos, enquanto construções socioculturais, dialogam com outras áreas de atividade humanas, como a literatura. Nesse sentido, retoma-se a leitura de Flicts a partir de uma nova visão de mundo que contemple a construção do conhecimento científico como parte da cultura e como caminho possível para a inclusão e para a luta contra as injustiças sociais.
O QUE ACONTECEU COM FLICTS?
Quanto a Flicts, se ele encontrasse a Cor de Burro Quando Foge ou o Marrom Glacê ou ainda o Bois de Rose, todas essas cores diferentes ou antigas... É verdade que Marrom Glacê e Bois de Rose são nuances de marrom e rosa respectivamente, além do Bois de Rose ser descendente direto de franceses, será que ele falaria o idioma das cores brasileiras? Mesmo assim quem sabe ele teria companhia?
Bem, houve um dia em que, cansado de não receber atenção dos companheiros, Flicts decidiu sumir. Afinal ninguém lhe dava atenção, não queriam saber de seus gostos, suas opiniões, seus planos para o futuro.
Sabe, é bem assim que muitos de nós agimos com pessoas com deficiência em geral, fazemos de conta que não as percebemos, não lhes damos atenção. Muitas pessoas, assim como os colegas de Flicts, têm preconceitos e não procuram saber sobre os interesses deles, sobre seus gostos e desejos para o futuro, alguns acreditam até que eles não têm futuro, por não poderem ver ou ouvir ou ainda andar com facilidade e ainda outras dificuldades, não podem conhecer, aprender. Enganam-se.
E da mesma forma alguns deles ficam em casa, não têm uma vida social, cultural, muitas vezes escondidos por suas famílias, quando crianças, ou ainda quando mais velhos procurando se esconder da sociedade em lugar de lutar por seus direitos.
Mas não precisa ser assim, todos têm o direito de conviver com os outros membros da sociedade, a diferença entre nós é o que impulsiona, o fato de haver o relacionamento entre os diferentes é o que “colore” a vida humana.
Da mesma forma que Flicts encontrou um lugar em que reina absoluto. As pessoas com deficiência aprendem e podem ter as profissões que desejarem, têm o direito de consumir cultura, constituir família e serem felizes para sempre...
Ah! Esquecemos de contar... Flicts foi para a Lua e lá ficou colorindo a Terra de maneira esplendorosa.
O FIM DA HISTÓRIA
Bem, esta história, assim como a de Flicts, não tem exatamente um fim, ela continua para sempre...
Assim como Flicts continua colorindo a Lua, as pessoas com deficiência continuam lutando contra os preconceitos, contra as barreiras que lhes são impostas: atitudinais, urbanísticas, arquitetônicas, escolares. Estas barreiras deveriam ser para essas pessoas, quando suprimidas, como o prisma é para a luz, uma forma de abrir novos horizontes... Possam ser profissionais respeitados nas áreas que escolherem.
Nós esperamos que eles, assim como Flicts encontrem as suas luas aqui mesmo, nos espaços sociais, nas escolas, contando com toda a comunidade escolar, afinal, não são apenas os professores e colegas que colaboram com a formação dos alunos de uma escola, principalmente daqueles com deficiência, mas toda a comunidade escolar: inspetores de disciplina, merendeiras, pessoal da secretaria, enfim, todos. Ainda encontrando amigos, e recebendo materiais adequados para seus aprendizados para poderem evoluir em seus conhecimentos.
REFERÊNCIAS
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