Publicado 12-10-2026
Palavras-chave
- Literatura,
- Ensino de Filosofia,
- Conto
Como Citar
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Resumo
Operamos, nesse texto, com a noção de acontecimento, do filósofo Jacques Derrida, a fim de propor uma reflexão sobre o encontro do olhar da personagem Ana com um homem cego que mascava chicles, tal como nos traz a narrativa do conto Amor, de Clarice Lispector. Um encontro que consiste em uma experiência de alteridade que evidencia fissuras, rupturas, imprevisibilidades e descontinuidades. Nesse contexto, o cego pode ser compreendido como uma imagem-questão, na medida em que atravessa o Outro, provocando um questionamento, uma percepção das brechas do cotidiano. A visão que Ana tem do cego produz o efeito de um dispositivo de abertura, capaz de desfazer certezas, romper camadas de superficialidades e provocar nela um olhar sensível ao outro dela mesma. Nesse sentido, a leitura do conto tem o potencial de promover uma prática filosófica viva, pulsante e aberta ao acontecimento, na fronteira/não-fronteira entre o filosófico e o literário. Além disso, Amor oferece um ponto de partida para o ensino da filosofia, ao convocar os estudantes a experienciar o inesperado e a romper com a percepção superficial do cotidiano. A narrativa proporciona que o filosofar se configure como um exercício de atenção, abertura e questionamento, integrando literatura e filosofia na reflexão sobre o acontecimento e suas fissuras. Portanto, o aprendizado filosófico não se limita à transmissão de respostas consolidadas, mas se constrói na experiência do imprevisto, na disposição para reconhecer a contingência do real e no potencial de se deixar atravessar pelo Outro, radicalmente outro.
