n. 33 (2026)
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As fissuras do acontecimento na escrita filosófico-literária de Clarice Lispector

Publicado 12-10-2026

Palavras-chave

  • Literatura,
  • Ensino de Filosofia,
  • Conto

Como Citar

BUENO COSTA, Pâmela; CORDEIRO PINTO, Marinazia Cordeiro Pinto. As fissuras do acontecimento na escrita filosófico-literária de Clarice Lispector. Ensaios Filosóficos, Rio de Janeiro, v. 1, n. 33, p. 137–156, 2026. DOI: 10.12957/ef.v1i33.102357. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/ensaiosfilosoficos/article/view/102357. Acesso em: 15 out. 2026.

Resumo

Operamos, nesse texto, com a noção de acontecimento, do filósofo Jacques Derrida, a fim de propor uma reflexão sobre o encontro do olhar da personagem Ana com um homem cego que mascava chicles, tal como nos traz a narrativa do conto Amor, de Clarice Lispector. Um encontro que consiste em uma experiência de alteridade que evidencia fissuras, rupturas, imprevisibilidades e descontinuidades. Nesse contexto, o cego pode ser compreendido como uma imagem-questão, na medida em que atravessa o Outro, provocando um questionamento, uma percepção das brechas do cotidiano. A visão que Ana tem do cego produz o efeito de um dispositivo de abertura, capaz de desfazer certezas, romper camadas de superficialidades e provocar nela um olhar sensível ao outro dela mesma. Nesse sentido, a leitura do conto tem o potencial de promover uma prática filosófica viva, pulsante e aberta ao acontecimento, na fronteira/não-fronteira entre o filosófico e o literário. Além disso, Amor oferece um ponto de partida para o ensino da filosofia, ao convocar os estudantes a experienciar o inesperado e a romper com a percepção superficial do cotidiano. A narrativa proporciona que o filosofar se configure como um exercício de atenção, abertura e questionamento, integrando literatura e filosofia na reflexão sobre o acontecimento e suas fissuras. Portanto, o aprendizado filosófico não se limita à transmissão de respostas consolidadas, mas se constrói na experiência do imprevisto, na disposição para reconhecer a contingência do real e no potencial de se deixar atravessar pelo Outro, radicalmente outro.